domingo, 2 de novembro de 2008

farpas



estou sozinha. irremediavelmente sozinha. apenas ouço o latido dos cães lá fora e o barulho constante e ensurdecedor do ventilador nesta tarde de abril.
meu corpo está amolecido por falta de perdão. perdão da vida que tenta reanimar-me e não tem resposta. estou oca de mim mesma. há a penas um sopro doloroso no meu íntimo.
estou sem os óculos, mal enxergo a minha letra, acho que o vulto que vejo é o meu próprio. apenas gastas e confusas imagens caligráficas que beiram a dor mortal da existência humana.
ninguém me ligou neste domingo. liguei incessantemente para tantas pessoas na esperança de acalentar a solidão corrosiva que está a destruir-me por inteira. estou gemendo. deus harmoniosamente se afastou, pois ele é alegria jubilosa do existir. porque tenho tanto medo da face de deus? os meus pecados deixaram de ser originais, eles se vestem e atuam no palco absoluto. estou em náusea, pois minha alma está visivelmente atordoada. joão, meu cachorro é um bom amigo. quer passear, mas eu não estou pronta. sou apenas um borrão de mim mesma. a existência é vírus no limiar da dor. e cruelmente, neste momento sou assaltada por um grito de esperança, maldita esperança. teimosa. que agarra a mão da sorte.
estou aqui, seca serenamente para esperar um breve inverno nostálgico.
gigi pedroza

2 comentários:

Da Vinci disse...

Fragmentos do meu pretenso romance:

O vento soprava forte, carregando areia para os degraus da varanda do velho chalé. Era inverno e a praia estava deserta, como ela.
Contrariando qualquer lógica, saira para caminhar antes que os pálidos raios de sol desaparecessem.
Há muito decidira que aquele era seu lugar no mundo, mesmo antes de encontrá-lo sonhara com ele. Uma pequena praia praticamente desabitada, mesmo na alta temporada.
Ali reunira seus livros, pensamentos, desejos e móveis, que apesar do tempo ainda conservavam o cheiro do cedro.
O vento açoitava-lhe a face, o que lhe dava um certo prazer, talvez varesse aqueles pensamentos dolorosos que teimavam em consumí-la...
...de quando em vez interrompia o caminhar e buscava pequenas pedras brancas, desgatadas pelo tempo, como seixos.
Ao ver uma luz acender-se ao longe percebeu que distamciara-se muito de seu refúgio, e que o caminho de volta teria de ser percorrido à luz da lua cheia que começara a despontar.
Não tinha deixado acesa a luz da varanda, mas a fumaça vinda do braseiro da pequena lareira de sua sala serviria de guia.
Ao chegar em casa sorveria calmamente uma taça daquele vinho chileno que há bastante tempo estava reservado. Atiçaria o fogo da lareira e voltaria à tela branca então, consumida ao som de música adequada, verteria sobre o teclado sua narrativa, dissecando à exaustão suas mais secretas angústias...

Nada bom, viu? Por isso parei.

gigi pedroza disse...

amiga,
uma descrição belíssima, carregada de sensações e realismo. acho que deves continuar, pois há substância literária, estou falando como leitora e prof de literatura. não pare - fragmento de uma densidade maravilhosa.
um abraço carinhoso!