quarta-feira, 5 de novembro de 2008

os boneco

era uma segunda-feira morna, talvez porque a menina estivesse com o coração contente. era mais um dia de feira-livre. ela e sua irmã caçula iriam com a mãe bondosa, que no dia anterior havia depositado nas suas mãozinhas as moedas esperadas por toda a semana. ela sabia o significado - novos bonecos. pequenos, desengonçados e feios, mas ela não tinha essa percepção. achava-os belíssimos, pois tudo era sonho e brincadeira.
acordou animada, cantarolava uma canção antiga que muitas vezes ouvira a mãe cantar quando estava a espremer o queijo. não sabia ela que os versos marcavam o compasso da dor. foram. a mãe determinou tarefas e disse para as duas de mãos dadas comprarem os bonecos e que voltassem logo!
as meninas chegaram à banca cheia de quinquilharias, coisa que menino gosta. o senhor era míope totalmente. usava óculos de fundo de garrafa... era assim o dizer do povo. coitado! pouco enxergava, dando assim oportunidade a quem o quisesse roubar. e a menina roubou.ela comprou sim os dois bonecos com as moedas, mas com uma enorme vontade de ter mais um, ela roubou dois, um para ela e o outro para sua irmã, pois menino, às vezes, não é egoísta, principalmente quando precisa de cumplicidade. meu deus! quanta inocência... cumplicidade infantil é reveladora! logo vem os qui-qui-quis, os ca-ca-cas. as mães espertas percebem o que de errado há. foi assim.
voltamos para a fazenda, não éramos mais as mesmas, estávamos diferentes. eu por ter feito algo que me levaria ao inferno, os mais velhos diziam isso, e minha irmã louca para revelar... revelou o segredo que eu pensava ser. mas menino não guarda segredos. tudo fica claro nos risinhos, no olhar, nas mãos torcidas, no próprio medo. no medo da descoberta. mamãe ficou chocada - "filha ladra! isso nunca!" o castigo lento veio, não foi surra como era o esperado. foi castigo silencioso, de uma semana inteira solitária no medo, na vergonha, nos outros que olhavam o revelado.
os bonecos ficaram expostos no museu da dor. todos que passassem, obrigatoriamente, os veria. olhariam para a prova do crime - lugar sagrado do pecado exposto - na cristaleira. passar em frente era a dor, a vergonha reveladas transparentemente nos belos cálices de vinho, licores e bebidas fortes dos dias festivos. isso durou toda a semana, até aquela próxima, sagrada e inesquecível dura segunda-feira, que nunca mais se apagaria das lembranças da menina.
teria que devolver ao homem da banca os bonecos roubados e ainda lhe pagar sem se quer poder trazê-los. confessaria publicamente a sua falta. foi terrível. dói ainda até hoje. foi uma surra sem marcas visíveis, mas as lapadas da vergonha ainda hoje ardem no coração da menina que queria apenas mais um boneco para brincar e vestí-lo como os outros que duravam apenas uma semana, pois a vida era efémera para aqueles bonecos das segundas-feiras do ano santo do senhor.
gigi pedroza

3 comentários:

Da Vinci disse...

não pense que não tenho lido...simplesmente ainda busco definições precisas para descrever o efeito que teus textos me causam...
tens te revelado usando a primeira pessoa várias vezes...
o nome do livro bem que poderia ser "A menina" ou " Inverno na Alma"...
amei "farpas" cheguei a sentir o gosto amargo e opressor do vazio...sensações que conheço bem...
estou em fase de processamento e administração de diversos sentimentos, também por isso meu silêncio.
grande abraço, Gadêa

gigi pedroza disse...

amiga querida,
sei que estou brincando de escritora... mas isso me alivia o fardo. bem sei que se sensções são causadas... sejam elas quais forem é porque foi dito algo e valeu a exposição... acredito que esse gosto amargo e a sensação de vazio tem sido o meu câncer. talvez um dia passe, um dia de chuva e sol.
meu afeto sempre.

beto disse...

Acho que me lembro de ter ouvido uma menina crescida me contar essas histórias há algum tempo atrás....

Hoje, relembrando esses contos, posso me sentir como naquelas tardes quentes de Rondônia. Belas eram as tardes em que passava ao teu lado, ouvindo-lhe contar histórias... histórias de vida... histórias para a vida...